Saturday, October 13, 2007

FANTASMAS AMEDRONTAM O MUNDO FLUTUANTE DAS GUEIXAS

As gueixas, para melhor ou para pior, são a cara do Japão. Mas na última década, a sensação de que, no futuro, a economia vai ser ainda mais desalentadora, está afugentando as gueixas dos negócios e a quintessência imagem da Terra do Sol Nascente enfrenta a sua substituição por prostitutas comuns e laçadores de clientes de pachinko. Os distritos de gueixas estão se tornando rapidamente extintos. Durante a década de 60, o Japão ostentava 35 hanamachi, ou distritos das flores, os nomes dados às áreas onde as gueixas trabalhavam e atuavam. Agora, há apenas meras seis áreas sobrando.

Ryotei, as dispendiosas hospedarias de estilo japonês freqüentadas por poderosos e influentes, os lugares onde as gueixas exerciam seu ofício, estão também em franco declínio, caindo para um décimo dos 524 que operavam há uns poucos 30 anos. Sem lugar para trabalhar, as gueixas não têm muitas opções na vida. Resta a elas pendurar o quimono, despachar os fãs, o shamisen e encontrar um trabalho de verdade. Em nenhum lugar a crise vem sendo tão sentida quanto em Tóquio e na antiga capital de Kyoto, os últimos bastiões das gueixas. “Extirparam o coração de Asakasa [em Tóquio]. Quando parecia que as ryotei estavam fechando para dar lugar aos pachinkos, os pachinkos estão, por sua vez, sendo engolidos pelas sex-shops. “Pode-se ver um montão de estabelecimentos desse gênero em apenas um prédio. Os velhos sujos preferem isso. Asakasa entrou em decadência”, conta uma ex-gueixa.

O destino tem também desferido um grande golpe a muitas das ryotei antes exclusivas do bairro de Asakasa, um lugar onde os figurões decidiam as questões mais prementes do Japão. Algumas se tornaram apartamentos, enquanto a Kinryu, um dos poucos estabelecimentos de estilo japonês que restam, sobrevive apenas com a receita advinda das tarifas dos estacionamentos de 100 ienes a hora, montados de ambos os lados da construção. “Desde que o primeiro-ministro Junichiro Koizumi chegou ao poder, temos visto cada vez menos pessoas do que antes”, conta um residente local. “Restam apenas 20 gueixas e só duas ou três aprendizes. A cidade perdeu seu brilho.”

A história é similar em outros distritos de gueixa de Tóquio. Numa primeira olhada, Shinbashi, o parque da riqueza, parece mais do que capaz de manter suas tradicionais artistas com o pagamento em dia. Mas as sex-shops estão pipocando em todos os lugares e os donos de algumas ryotei estão aplicando aos seus estabelecimentos um visual moderno, fugindo do passado tão vital para as gueixas. Asakusa, que já foi o lar de mais de mil gueixas, agora tem menos de cinquenta.

Um grande incômodo para Kagurazaka são as ruas estreitas e a falta de estacionamento. Sem falar que as gueixas que restam estão ficando cada dia mais velhas. Só Mukojima parece estar prosperando. “Temos pelo menos 200 gueixas. A maioria delas é jovem. Tudo permanece em segredo. Assim, temos políticos de ambos os lados”, confidencia o dono de um café local. “Além disso, estamos também bem longe do centro de Tóquio, tornando mais improvável um encontro por acaso com alguém que você conhece.”

Já Kyoto está lutando tanto quanto a capital. Suas casas de chá, o equivalente as ryotei de Tóquio, também têm minguado desde seu ápice dos anos 50 aos anos 60. O que está indo para o ralo é agora quase parte integrante do negócio. As madames estão ficando velhas e ninguém quer assumir o controle para elas. “As casas de chá estão sendo desmanteladas e sendo substituídas por hotéis e estacionamentos. Construa um hotel e você estará arruinando a atmosfera dos velhos distritos de gueixas”, desabafa uma ex-proprietária de casa de chá.

Uma vez que as casas de chá e as okiya (o outro tradicional estágio para as gueixas) estão desaparecendo, tornou-se uma luta encontrar mulheres dispostas a virarem geiko, o nome para gueixa, em Kyoto, ou maiko, a aprendiz de gueixa da antiga capital do país. Recentemente uma união de casas de chá juntou forças para tentar recrutar novas garotas tiradas do público em geral, mas o resultado foi menos do que satisfatório. “Trabalhar como geiko é duro”, explica uma fonte da casa de chá. “Não há dois dias de folga por semana nesse trabalho. E você tem de passar por um rigoroso treinamento para aprender a dançar. É, provavelmente, um estilo de vida que as jovens de hoje não conseguem suportar.”

OS TEMPLOS DA FERTILIDADE

Os japoneses têm tido uma afinidade tão grande com o sexo através dos tempos que, provavelmente, têm o mesmo direito dos holandeses de chamar seus país de Países Baixos. Em priscas eras, o sexo no arquipélago japonês era considerado sagrado, e em muitas partes da zona rural templos fálicos ainda permanecem em testemunho dessa crença.

“No velho Japão, as pessoas acreditavam que o sexo era um meio de combater os maus espíritos e os desastres naturais”, diz um comentarista sobre religião, explicando a proliferação dos ícones fálicos por todo o país. Mas ele observa que, com o governo da era Meiji (1868-1912) tornando o xintoísmo a religião oficial do país, os provocantes tabernáculos começaram a desaparecer. Como resultado, Tóquio e as áreas próximas perderam quase todos seus templos fálicos.

Alguns fósseis fálicos ainda podem ser encontrados na capital e arredores. Um desses lugares é o distrito de Ebisu. Uma estátua de Ebisu, o Deus dos Comerciantes, está localizada ao lado da estação da Linha Yamanote, da JR (a RFFSA japonesa), e que leva seu nome. Quando vista de trás, a estátua aparentemente lembra algo semelhante a um grosso membro masculino. Há outros em Tóquio, também. Um pequeno templo localizado perto do lago Shinobazu de Ueno, no bairro Taito, hospeda um dos símbolos da fertilidade, uma peça feita de pedra que tem permanecido duro como rocha desde o século 17.

Para encontrar mais evidência da fascinação que o país teve certa vez pela genitália, basta fazer uma curta viagem para fora de Tóquio. Por exemplo, o Templo Wakamiya Hachimangu, de Kawasaki, onde uma bigorna feita de aço e no formato de pênis recepcionam aqueles que procuram por um destino mais fértil.

Depois, há o Templo Meotogi ao norte de Kofu, na província de Yamanashi. Embora não devotado aos falos, como a maioria dos outros templos da fertilidade são, uma árvore de séculos de idade no chão do templo serve para o mesmo propósito de dar testemunho ao passado obcecado por sexo do Japão. E dar é talvez a palavra certa a ser usada para a famosa árvore do Templo Meotogi, uma vez que seu tronco lembra uma certa parte da anatomia feminina, o portão para a vida.

Para intensificar ainda mais a imagem, dizem que a parte de trás da árvore também se parece com o traseiro de uma mulher. Os fiéis que visitam o Templo Meotogi são encorajados a acariciar a árvore e a bater palmas tão perto quanto possível da abertura do tronco enquanto rezam aos deuses, possivelmente em imitação à procriação. Entre as notáveis lembrancinhas do Templo Meotogi estão os mimisouji (limpadores de ouvido feitos de bambu). Dizem que o simbolismo por trás do ato de enfiar o alongado limpador no orifício do ouvido provavelmente tem algo a ver com o ato que, em primeiro lugar, tornou o templo famoso.